Ney

Ney

O pouco cabelo mesclado entre o preto e o branco revela os anos de experiências vividas por ele. A pele dourada resulta da exposição aos raios solares. Os olhos quase que fechados são consequência da relação íntima com água salgada. O sorriso largo é fruto de uma alma iluminada. O perfil é daquele cara gente boa. É reconhecido em todas as praias da região.

 

Conheçam Arlindo Camilo Machado Filho, apelidado de Ney. Já está na sua 49ª bateria de vida. É um surfista do Guarujá (São Paulo), que tem a Praia da Atalaia como seu escritório. Além de pegar ondas, dá aulas em projetos sociais para crianças, idosos e portadores de deficiências. A minha vida se cruzou com a dele após uma entrevista na rádio em que trabalhava. O papel incrível que realiza em prol da natureza e da vida humana é inspirador. O roteiro do filme de Ney é um drama que se tornou uma vitoriosa comédia. 

lua cheia

O ser humano sempre sonhou em ir à Lua. De forma figurativa. De forma real. Após anos de pesquisas, 1969 seria o ano de colocar os pés sobre ela. Aqui na Terra, o rei Pelé emplacava seu milésimo gol. O Palmeiras conquistava o Campeonato Brasileiro. Roberto Carlos liderava as paradas com o disco que trazia a famosa canção “As Curvas da Estrada de Santos”. Em São Paulo, o Peixe (apelido do Santos Futebol Clube) levantava o troféu do Campeonato Estadual. No Guarujá, um menino acabara de dar as boas-vindas ao mundo.


O garotão nasceu em meio ao balanço do mar. No litoral paulista, deu seus primeiros passos. De pés descalços. Na areia fina da praia. Sua estadia durou pouco tempo. Assim como na Copa do Mundo de Futebol, que ocorre a cada quatro anos, o calendário pulou os meses. Quando Seu Arlindo (falecido) e Dona Cecília se deram conta, já era hora de encontrar outra cidade sede para morar. Arlindo Filho – apelidado de Ney – junto aos seus irmãos Carlos e Elaine viajou mar afora. A maré os levou a 626 quilômetros de distância. Em Itajaí, encontraram o local certo para aportar. Semear experiências. Colher sorrisos. Criar raízes.

ares de verão

O título deste capítulo é considerado o hino informal de Itajaí. Foi esculpido pelas mãos do grande artista Carilinhos Niehues. “Deixa por conta da manhã, que o azul do céu e o Sol, se encarregam de azular, as águas da Atalaia. Maré mansa pela praia, Geremias, nos traz peixes pro jantar”. Assim fazia Seu Arlindo. Jogava suas redes pelo mar. Sem pressa, aguardava. Ao lado, tinha um companheiro. O primogênito trazia o mesmo nome do pai. Juntos partilhavam o amor pelo mar.


Pescavam e caçavam marisco. Porém, como diz o ditado popular, “Um dia da caça, outro do caçador”. Ney foi fisgado. O motivo? Uma nova prática desportiva que começara a surgir pelas praias. Na década de 1980, marginalizada. Hoje, aclamada. Atalaia foi tomada por uma trupe diferente. Cabelos longos. Bermuda larga. Pele bronzeada. Linguajar arrastado. Numa mão, a parafina. Na outra, uma tábua curiosa.


Tudo aquilo chamou a atenção de Ney. O garoto logo se empolgou. Os olhos brilharam e não por conta do Sol. Como um pássaro, mostrou suas asas prontas para voar. O pai, com uma tesoura na mão, cortou o barato dele. Preocupado, não queria que o filho se envolvesse com aquele grupo. Coisa de malandro. “Vagabundo Confesso”, como na canção do Dazaranha. Porém, Ney vivia na praia e não teria como se afastar daquela galera que batia cartão num escritório a céu aberto.

primeiro raio de sol

A década de 1990 estava próxima do fim. Mas ainda havia tempo para Ney correr atrás de seus sonhos. No mar, já era rei. Queria agora expandir sua majestade para a criançada. Fez as malas e embarcou rumo ao Guarujá (São Paulo), sua terra natal. Segundo ele, “Nem todo bom sufista é bom professor”. Então, na escola Rumo ao Surfe Profissional (RSP) expandiu seus conhecimentos. Dava aula para crianças carentes da favela. As buscava em casa. A renda era apertada, mas sempre davam um jeito, “Com um gol ‘chaleira’ bem velho, a gente conseguia fazer esse trabalho”. Conquistou, enfim, o título de professor de surfe. 


Voltou para Itajaí repleto de projetos. Fundou sua primeira escola da modalidade. Após plantar tanta dedicação, colheu os frutos. Com 30 anos, conheceu uma mulher encantadora. Namorou Mônica por três anos. De repente, tinha ao lado uma companheira para a vida toda. Naquele momento, não era só o Nego Joe que tinha o seu “Primeiro Raio de Sol”. E como na canção “Simples Assim”, de Giana Cervi, “tinha com quem dançar, compartilhar e uma aliança pra trocar”. Casaram e juntos construíram uma linda família. 

Ney parou de dar aulas após a chegada dos filhos, Manuela, Joanna e Arthur. Precisou ter renda fixa para sustentar a família. Em Itajaí, não era comum a cultura das escolas de surfe. Fechou as portas de sua amada escolinha. Trocou a praia pelo escritório. A bermuda pela camisa social. Se tornou gerente comercial. Não conseguiu ficar muito tempo. Se ausentou por oito anos das aulas. “Foi triste, fez falta, mas eu tinha que partir por outro lado por causa da família”. Logo que as pequenas cresceram, ele voltou correndo para a sua segunda casa.
 

FOI TRISTE, FEZ FALTA, MAS EU TINHA QUE PARTIR POR OUTRO LADO POR CAUSA DA FAMÍLIA.”

A MARÉ ESPORTIVA

A origem do surfe é disputada entre os povos peruanos e polinésios. Os primeiros relatos do surfe contam que foi criado no Havaí pelo rei Tahíto. Antes disso, os peruanos já utilizavam uma canoa confeccionada de junco para deslizar sobre as ondas. O primeiro relato escrito foi feito pelo navegador inglês, James Cook, que gostou do esporte por se tratar de uma forma de relaxamento. No Brasil, a cidade de Santos (São Paulo) é o berço dos primeiros praticantes, nos anos 1950.


O Rio de Janeiro tem um lugar importante na história do surfe. Em 1976, na primeira vez que o Brasil sediou uma etapa do Circuito Mundial, uma multidão se aglomerou nas areias, na calçada e nas pedras da Praia do Arpoador para ver de perto os jovens que usavam pranchas para “andar” sobre as ondas. Em plena ditadura militar, os atletas eram renegados pela sociedade e tachados de “vagabundos” por suas famílias, que não compreendiam que surfar era mais que um hobby.


Gabriel Medina fez história após se tornar o primeiro brasileiro a vencer um mundial de surfe. Depois dele, surgiram grandes nomes: Adriano de Souza, Caio Ibelli, Italo Ferreira e Filipe Toledo. Em 2020, a modalidade alcançará uma façanha. Pela primeira vez na história, o surfe fará parte dos Jogos Olímpicos de Tóquio. A qualificação para a competição será decidida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), com base no que já é feito em outros esportes. 


O surfe é recheado de manobras radicais. Essas são as 10 principais. Tubo: atleta fica debaixo de água. Batidas do lip: surfista bate com a parte de baixo da prancha no lip, que é a crista da onda. Rasgada: joga a rabeta da prancha para a frente e vira o corpo para a onda, forçando o pé de trás para espirrar o máximo de água possível. 360º: volta completa sobre si mesmo, utilizando a prancha. Floater: passar a onda que irá quebrar à frente. Cut back: voltar na direção contrária da onda e depois regressar na direção normal. Aéreo: voo sobre a onda. Grab rail: movimento com as costas voltadas para a parede da onda. Cavada: curva na base da onda para conseguir mais velocidade e depois vai na direção da crista. Duck dive: mergulhar por baixo da onda com a prancha.

Fonte: https://bit.ly/2Q7Zfal
 

o preço

O mar estava calmo nas praias de Itajaí. Até que uma vara foi jogada ao mar. A ponta guardava uma atraente isca. Essa era diferente das que seu Arlindo costumava usar na pesca. A presa também seria outra. Ao invés de peixes, jovens. No lugar das minhocas, drogas. Ney entrou na onda. Fumou o primeiro cigarro de maconha aos 12 anos de idade. Havia apenas começado no surfe, e na vida. 


As formas de entrar neste mundo são diversas. Superar fases, difícil. Relaxar. Esquecer. Um remédio eficaz para a felicidade. De tão bom, parecia ter caído do céu. Porém, além da chuva, só um “anjo” caiu de lá. Segundo a Bíblia, ele não veio à Terra para semear alegrias. Pelo contrário. Entretanto, quando se é jovem, pouco importa as consequências. Nada aparenta ser tão nocivo. Todos acreditam fazer parte da Liga da Justiça, como grandes heróis imbatíveis. 


Como na canção “O Preço”, dos Engenheiros do Hawaii, “Pensou que era liberdade, mas na verdade, eram as grades da prisão”. Na cela, foi visitado por outro integrante da família drogas. O crack – caçula da época – queria fazer novas “amizades”. Encontrou em Ney uma abertura. Juntos, viveram por algum tempo. Essa relação impediu que o garoto mantivesse contato com outros amigos e compromissos. De repent,e não tinha disposição para acordar cedo. Aos treinos e competições, que tanto batalhou para conquistar, passou a chegar diariamente atrasado.


“Naquela época tudo era válido”, afirma Ney, ao contar que seus amigos também usavam drogas. Um certo dia, o surfista acordou. Lembrou da primeira vez que havia sido pescado. As boas experiências. Sentir a água salgada no corpo. Os raios do Sol aquecendo o coração. O céu azul presenteando a visão. A o abraço envolvente das ondas do mar. A sensação de liberdade. Então, da sua cama, levantou e olhou o espelho. Não reconhecia mais seu próprio reflexo. Chegara a hora de levantar. 


Nem sempre o caminho iluminado é escolhido. Por causa da fragilidade que existe em cada ser humano, os atalhos parecem ser a melhor opção. No decorrer do trajeto, fica claro que não valeu a pena. Todos estão sujeitos a cometer erros. Com força e fé, Ney reassumiu sua própria história. Não estava condenado. Havia apenas esquecido quem verdadeiramente era. Com a ajuda da família e de um amigo pastor, seguiu firme. Novamente, se tornou o campeão que sempre foi.

“NAQUELA ÉPOCA

TUDO ERA VÁLIDO.”

armas ao nosso favor

A rotina é exaustiva. Dá aulas particulares de segunda a sábado. Terça e quinta-feira, ensina crianças carentes pelo Surfe Comunitário da Unimed. Também tem a Associação Escola de Surfe Amigos da Atalaia. O intuito principal é a inclusão social. Acontece aos domingos e é aberto a todos. Além das crianças, Ney recebe idosos e deficientes visuais.


A metodologia de trabalho é diferente. O tato é peça fundamental. Os alunos são instruídos a cada movimento. Na areia da praia, apresentam a teoria. Após isso, é hora de encarar o mar. Deitados sobre a prancha, são guiados pelos professores. Quando a primeira onda se forma, recebem o aviso para subir. “Os deficientes têm uma força de vontade que, muitas vezes, sobem mais rápido na prancha do que as outras crianças”.


Em 2010, a associação bateu o recorde do Ranking Brasil com o maior número de deficientes visuais surfando em uma mesma onda, por um segundo. O título foi conquistado em 27 de junho na praia da Atalaia, durante as festividades do aniversário de 150 anos de Itajaí. Apesar da falta de visão para realizar manobras, esses guerreiros possuem um equilíbrio surpreendente e com ajuda de instrutores, conseguem surfar com perfeição.


Uma das histórias que marcaram o surfista professor foi a de Sidnei Pavesi. O fisioterapeuta cego, na época com 36 anos, foi desafiado pelo jornal Diário Catarinense a voltar a surfar após um ano parado. Ney relembra que Pavesi estava fora de forma, o que dificultou o processo. Foram aproximadamente 15 tentativas. Duas resultaram em momentos especiais. Na sexta, Sidnei ficou por mais de 10 segundos em pé. Todos foram ao delírio na praia.

Em 2016, Ney preparou os atletas de Itajaí para os Jogos Abertos Paradesportivos de Santa Catarina (Parajasc). O resultado de tanto esforço? Medalha de ouro no peito e a alma repleta de orgulho. Pouco a pouco, escreveu seu nome pelas praias de Itajaí. Com orgulho, afirma que “Todo aluno aprende a surfar, é questão de honra pra mim”. Alguns dos seus ex-alunos alcançaram grandes façanhas. Hoje, surfam profissionalmente na Costa Rica, Austrália e Califórnia.

 
A sombra de Ney é a falta de apoio do governo e de empresas privadas. Os equipamentos são caros. O neoprene, material da roupa de borracha térmica, tem custo elevado. Cerca de mil reais. Já a prancha básica, mais mil reais. A de fibra, 1.800 reais. O professor reforça a importância do projeto para a sociedade: “Esse projeto tem tirado crianças do vício do computador, das drogas e da marginalidade”. E o melhor, o surfe pode ser a profissão de um jovem.

“OS DEFICIENTES TÊM UMA FORÇA DE VONTADE MUITO GRANDE.

transbordar

Como na carta do apóstolo Paulo ao evangelista Timóteo, Ney combateu o bom combate, terminou a carreira, guardou a fé. Em frente às competições de atleta, aos poucos tira sua prancha do mar. Hoje, seus esforços estão empenhados na carreira dos filhos, Joana e Arthur. Já diz o ditado, “Filho de peixe, peixinho é”. “É pai, filho, irmão, amigo, tudo junto” – ao contrario da relação que tinha com o pai, as crianças sempre foram incentivadas a praticar o surfe. O caçula Arthur, de 6 anos, é o 7º no ranking catarinense. Joanna, de 11 anos, é 13ª no ranking brasileiro, categoria sub 10/11.

A longo prazo, Ney projeta grandes sonhos. Quer manter o surfe com garrafas PET. A prancha ecológica é ferramenta essencial na conscientização de um mundo melhor e sustentável. Além disso, há o Projeto Cadeirantes. Para sair do papel, precisará do apoio de terceiros. A prancha adaptada custa em média 5 mil reais. O investimento é recompensado pelo sorriso das pessoas que achavam impossível voltar ao mar. E assim como na canção “Anjos”, do Rappa, provar que “Para quem tem fé, a vida nunca tem fim”.


“Não desista! O sonho tá aí, basta você seguir!” – Esse é o lema de Ney Machado. Aos 49 anos, vê sua vida ir ao encontro da música “Como Uma Onda”, de Lulu Santos: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa. Tudo sempre passará”. O que fica é o sentimento que semeou. Sair na rua e ser conhecido pelo povo que se tornou sua segunda família, é algo inestimável para ele. Paulista na Certidão de Nascimento. Catarinense de alma e coração. 

Já passou por severas batalhas. Numa delas, perdeu seu pai. Com ele, aprendeu a ser uma pessoa de valores. Em Deus, põe sua confiança. Nas dificuldades e alegrias, recorre a seu livro preferido, a Bíblia. Entre histórias inspiradas, encontra forças para lutar. O menino do Guarujá se tornou um dos grandes homens de Itajaí. Aprendeu com seus erros. Os contratempos só fortaleceram seus joelhos para levantar quantas vezes forem necessárias. Assim como na prancha, é preciso persistir. Não deixar a maré levar. Alcançar o pico mais alto da onda e lá de cima, flutuar sobre as águas.

maré esportiva