nasce uma promessa

Mil novecentos e noventa e quatro é um ano marcante para os brasileiros. Lágrimas e sorrisos estampavam os rostos verdes e amarelos devido a inesperados acontecimentos. O tão sonhado tetra da Seleção Brasileira de Futebol, após 24 anos de espera. A criação da atual moeda do país, o Real. E também a perda de grandes nomes como Tom Jobim e Mário Quintana. Mas, o nosso personagem veio ao mundo no mês de maio e esta chegada lembra um outro atleta. 


No primeiro de maio, feriado do dia do trabalhador, em meio às curvas da vida, morria um dos maiores esportistas do país, Ayrton Senna. A fatalidade comoveu milhares de pessoas pelo mundo. Porém, a vida dá voltas e na cidade mais peixeira de Santa Catarina, dois dias após o ocorrido, nascia uma revelação do esporte local. Três de maio foi dia de festa na casa da dona Marlete e do seu Flávio. O primeiro e único filho, Leonardo Teixeira, chegara ao mundo para trazer alegria e mostrar que vitórias e perdas fazem parte do percurso. 

 

o primeiro dobok

O menino alegre e de sorriso fácil sempre gostou de estar com os amigos e a família. A afinidade com as artes marciais veio do berço. O Seu José é faixa preta em judô, porém o filho não herdou o mesmo gosto pela prática. E foi pelo convite de um colega que Gago – assim apelidado pelos amigos – conheceu o taekwondo. Naquele momento trocou o kimondo pelo dobok. “No início, era apenas uma brincadeira”, afirma Leonardo. As aulas eram disponibilizadas de forma gratuita em um projeto social do município. Devido à necessidade de trabalhar, ele abriu mão do projeto. Mas, não seria esse o tchau ao taekwondo. 


Soldado ferido! Leonardo estava apaixonado. É comum atribuir sentimentos ao coração. Mas, você já se perguntou o que acontece com o cérebro quando alguém se apaixona? O amor é comparado a um vício. Afinal, segundo a ciência, esse sentimento reage no corpo humano como uma droga. Libera doses de substâncias químicas capazes de criar sensações de euforia, prazer e conforto. Nesta altura do campeonato, o Gago já sabia disso.


 Ele encontrou uma academia perto da escola onde estudava. Sua rotina passou a ser: trabalho durante o dia, aula à noite e treino das 23h até as 0h30. E assim consecutivamente. A diversão ou melhor dizendo, a paixão, liberava toda a disposição necessária para encarar essa rotina. Já dizia Fernando Pessoa, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.
 

senhor miyagi em ação

Tudo era diversão até ele participar do primeiro campeonato em 2009 e lá conhecer o seu atual mestre. Na disputa, a habilidade do menino franzino despertou a atenção de Lenoir de Oliveira. “Quando o vi lutar, logo convidei para fazer um teste com a equipe de alto rendimento”. Nascia ali uma amizade digna de ‘Karate Kid’, ou melhor dizendo, ‘Taekwondo Kid’, entre o Senhor Miyagi e o Daniel Larusso catarinenses.

 
Uma semana após a competição, Leonardo aceitou o convite e foi à academia treinar. O suor escorria pelo dobok. As pernas pareciam não sustentar mais o peso do corpo. “Nunca apanhei tanto na minha vida”. E como diz a tradição coreana, o branco da roupa guardava a cada golpe, todo o conhecimento vivido pelo atleta. Ao final, o mestre Lenoir apreciou a desenvoltura do garoto e de lá, nunca mais o deixou sair.  

 

As artes marciais carregam simbologias interessantes. Ao começar pela roupa usada para treinar corpo e mente do lutador de taekwondo. O branco do dobok, uniforme que equivale ao kimono em outras modalidades, significa a profundidade do universo, e assim mantém viva a antiga tradição coreana. 


De acordo com a teoria Yin Yang, o dobok se divide da seguinte forma: a calça corresponde à energia Yin, que ascende da terra; a blusa corresponde à energia Yang, que descende do céu; a faixa representa o homem entre o Yin (céu) e o Yang (terra).
Para mudar de faixa, o aluno faz avaliações acompanhadas por um mestre. A caminhada é dividida em ‘Gubs’ e depois em ‘Dans’. A ordem é decrescente do 10º ao 1º gub. Nessa categoria a gola da blusa é branca e no formato da letra “v”. Já a cor preta é utilizada na graduação de Dan, e é opcional a partir do 4º até 8º Dan. 


Até o 8º Dan, a blusa apresenta um tecido preto mais grosso, com listras brancas e totalmente aberto para vestir. É o mesmo corte de um kimono de origem japonesa. No 9º Dan, a calça branca ainda permanece, o casaco volta a ser branco com gola alta em letra “v”. Os detalhes do Yin e Yang e Palgwes continuam. A gola de cor preta e vermelha é destinada para a graduação infantil e juvenil.

 

sob o tatame 

O que faltava em experiência, transbordava em habilidade. Logo nos primeiros campeonatos, Leonardo derrotou atletas que se destacavam no cenário catarinense. O êxito é fruto de treinos intensos que o levaram ao Campeonato Brasileiro. O resultado teve sabor prateado com a conquista do segundo lugar. Perdeu o pódio por apenas um ponto para o atleta titular da seleção brasileira. 


Após estrear com o pé direito, mais campeonatos no currículo: locais, regionais, estaduais e nacionais. Numas dessas viagens, conheceu um outro atleta, João Victor Diniz. No início não mantinham contato constante. Isso mudou quando Diniz passou a compor a equipe de alto rendimento, no ano de 2013. Do pontapé inicial, já somam dez anos de amizade. “Sempre admirei o Léo pela sua dedicação ao esporte, estudo em relação às lutas e regras”, afirma Diniz. 


Essa parceria foi importante para fortalecer a fé na carreira. Tudo estava bem, desenvoltura dentro e fora do tatame. Mas, assim como foi falado no início desse texto, o mundo dá voltas, era vez de girar e descer em uma estação complicada. A cidade de Florianópolis, para fortalecer seu time, contratou um atleta experiente do Estado de São Paulo que se tornaria o maior rival do nosso protagonista.
 

batman vs. super homem  

Nárnia enfrenta um terrível e prolongado inverno imposto pela falsa rainha Jadis – a Feiticeira Branca. Em outro reino distante, o sol incomum aquecia os corações de 4.280 mil paratletas de 166 nacionalidades diferentes. Desses, 182 brasileiros. Na terra da monarquia britânica, receberam as boas-vindas da icônica Rainha Elizabeth II. Na cerimônia de abertura, Stephen Hawking os inspirava ao afirmar que pensamentos inovadores levaram a ciência a derrubar barreiras antes consideradas intransponíveis. O mesmo acontece com paratletas que desafiam os limites da performance humana dia após dia.

Flavio disputou com os melhores paratletas do mundo. Afirma que foi um misto de alegria, honra e nervosismo. A medalha não veio, mesmo assim o resultado foi histórico. Salto de 1,68 metros na primeira competição internacional. Bateu o recorde brasileiro da modalidade – segundo o Comitê Paralímpico Brasileiro – e a própria melhor marca da carreira de 1,65 metros de junho de 2012. Para fechar com chave de ouro, foi o único representante das Américas na decisão. O leão Aslam atendeu os pedidos da família Reitz. E após a primeira missão, chegara a hora de Flavio traçar o caminho para casa.

um bom filho à casa torna

O ano de 2016 chegou com novos ares. E foi pelos céus que um avião trazia consigo o filho pródigo de Itajaí. Ao pousar no aeroporto de Navegantes, Léo sabia que desafios estavam por vir. Esse era o momento de apertar o play no video game e seguir em busca de uma missão: derrotar o seu rival! Não foi logo de cara que eles se enfrentaram. Levou um ano e a ansiedade do Gago só aumentava.


Dedicação, suor e determinação. Esses ingredientes compuseram o enredo até a final dos Jogos Abertos de Santa Catarina (JASC) de 2017. Já dizia Tom Jobim, “Toda a música é reflexo de uma época”. Seria essa a canção da vitória para Leonardo? O tão sonhado título do JASC estava a um degrau de distância. Porém, antes era preciso enfrentar aquele velho conhecido na segunda elevação. 


Ao entrar no tatame, o dobok de Leonardo carregava, assim como diz a cultura coreana, todas as experiências vividas pelo atleta. Lembranças boas e ruins se uniam em perfeita sintonia para fortalecer as pernas, braços e a mente do catarina. E adivinhem, ele conseguiu! O risonho lutador não podia acreditar no que estava a sua frente. Ele acabara de tirar das mãos do rival, a kryptonita que detinha seu maior sonho: o título de campeão do JASC.


Impossível olhar para essa história e não lembrar de uma famosa frase do grande Ayrton Senna: “Seja você quem for, seja qual for a posição social que você tenha na vida, a mais alta ou a mais baixa, tenha sempre como meta muita força, muita determinação e sempre faça tudo com muito amor e com muita fé em Deus, que um dia você chega lá. De alguma maneira, você chega lá”.


O Gago chegou! Tomou para si esses ensinamentos que formaram sua alma de vencedor. Assim como seu ídolo, Jesus, ele voltou para uma nova vida. Na mochila, além de todos os apetrechos obrigatórios para lutar, ele traz também algumas medalhas que selaram as vitórias do Tricampeonato Brasileiro (2016, 2017 e 2018), Campeonato Pan-Americano Universitário (2018), Bicampeonato do JASC (2017 e 2018). Para finalizar em grande estilo, ele é o reserva da Seleção Brasileira de Taekwondo. 


Quando perguntado sobre seus planos para o futuro, os olhos de Leonardo logo saltam e os lábios mesclam entre o sorriso, a seguinte frase: “Quero ser campeão mundial”, assim como suas maiores inspirações, Lee Dae-Hoon (sul-coreano bicampeão Mundial em 2011 e 2013), e Ahmad Abughaush (jordaniano campeão Olímpico em 2016). O caminho até lá terá algumas paradas por outros campeonatos. Em fevereiro de 2019, Léo disputará a seletiva fechada para o Mundial de Londres. Ano que vem, também participará da seletiva para as Olimpíadas Universitárias, em Nápoles, Itália.


A preparação para as seletivas requer de Gago, abdicação de sair com os amigos, curtir a família e comer seus pratos favoritos: macarrão carbonara, churrasco e hambúrguer. A lista é extensa, mas para Léo, tudo vale a pena! Como bom itajaiense, é um eterno “pescador de ilusões” que segue “Transformando Suor em Ouro”, assim como no título do seu livro favorito, escrito por Bernardinho