a promessa

Relembrar é viver. Então, esta história começa nos anos 1960. Mais exato, 1967. Nas rádios, o amor era líder em audiência, representado por Sérgio Reis com seu “Coração de Papel” e Roberto Carlos em “Como É Grande o Meu Amor Por Você”. Ao falar de amor, a lembrança leva a um órgão em especial. Ele se transformou o assunto mais comentado, após ser realizado o primeiro transplante de coração do mundo. Ao viajar pelo globo, na Inglaterra, os Beatles lançavam o disco mais importante do Rock, “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”.


Os movimentos hippie tomam as ruas com a famosa frase “Faça amor, não faça guerra”. Che Guevara, o revolucionário cubano, vai a óbito. Acontece a primeira tragédia espacial. O Brasil perde um de seus maiores escritores, João Guimarães Rosa. Pelos bancos, começa a circular o Cruzeiro Novo. No Congresso, é criada a Fundação Nacional do Índio. A Lei de Imprensa é sancionada e a censura prévia visita as emissoras e redações. Pelos gramados, o Grêmio conquista o gauchão e o Marcílio Dias, o vice-campeonato catarinense. Na mesma cidade do clube rubro anil, nasce Gelson Silva, que escreveria seu nome nesses dois times.

chutes iniciais

Num terreno baldio, com duas traves antigas, Gelson deu seus primeiros chutes. O campo ficava atrás de sua casa, no bairro Dom Bosco (Itajaí). Na caminhada, o papa-siri encontrou uma fiel aliada. Dona Zilda, técnica de futebol amador. Numa Belina antiga, levava 11 jogadores amadores para todos os campeonatos que conhecia. Desde cedo, o pequeno itajaiense já chamava a atenção pela habilidade com a bola nos pés. Era ágil e rápido. A qualidade técnica fortalecia a confiança em si. Mesmo ao enfrentar jogadores mais velhos. 


A escritora catarinense Arita Damasceno Pettená, em um de seus famosos poemas, cunhou o seguinte trecho: "Possamos dizer, cheios de saudade: nunca estivemos sós!". Como Arita, Gelson foi presenteado com o apoio de algumas pessoas. Em especial, seus pais. O incentivaram desde cedo. Supriram as necessidades do filho até os 20 anos de idade. Algo incomum na época, já que os jovens de classe baixa desde cedo trabalhavam para ajudar nas finanças da casa. O pai, João Pedro, por 40 anos foi frentista. Do posto, tirou o sustento da família, além de alimentar o sonho do filho. A mãe, Nesi, sempre dedicada, cuidava com carinho de todos os serviços do lar.

 


Com o passar do tempo, ficou sabendo de uma peneira que aconteceria no litoral de São Paulo, organizada pelo Santos Futebol Clube. Sem hesitar, embarcou nesta aventura. Saiu de Itajaí rumo ao seu sonho. O papa-siri de nascença buscaria um lugar ao sol na equipe apelidada de peixe. O teste foi duro. Gelson correu, driblou, chutou ao gol. Encharcou o famoso uniforme branco com brasão e duas estrelas amarelas. Se esforçou para exibir o seu melhor futebol. Após a prova, o veredito. Ansioso, o catarina aguardava o resultado. Com a prancheta na mão, o responsável avisou: não foi dessa vez. 


Gelson não desanimou. Partilhava da mesma opinião do poeta Lindolf Bell: “Menor que meu sonho, não posso ser”. Voltou então para casa, determinado a realizar seus projetos. Nesse meio tempo, perdeu o ano letivo na escola. Por esse motivo, seu pai fez um convite: participar de mais um teste. Desta vez no time da cidade, que traz o nome do grande marinheiro rio grandense, Marcílio Dias. O garoto encarou o desafio. Sacudiu a poeira das chuteiras trazidas de Santos e as calçou para uma segunda batalha. Com êxito, foi aprovado. Era o mais novo jogador do Marinheiro. 
 

Que o futebol é o esporte mais popular do Brasil e do mundo, não há dúvidas. Jornalistas e comentaristas brincam com a ideia de que os ingleses inventaram o futebol e o Brasil aperfeiçoou. A Seleção Brasileira é referência para as demais, já que conquistou o feito único de ser pentacampeã da Copa do Mundo FIFA (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002). O Campeonato Brasileiro, famoso “Brasileirão”, a cada ano se torna mais competitivo e de melhor qualidade técnica, berço de importantes revelações na modalidade. 


Santa Catarina tem importantes marcas no País. Não são numerosas, mas sim de grande peso. O primeiro time a conquistar fama nacional foi o Criciúma com o título da Copa do Brasil em 1991. Os times da capital, Avaí e Figueirense, já fizeram boas temporadas que renderam a esperança de classificações para outros campeonatos, porém, nunca foram além disso. A Chapecoense na atualidade é o time mais querido e conhecido do Brasil. Sempre será lembrado pela honrosa e triste conquista da Copa Sul-Americana de 2016.


Já que é tão popular em relação à forma de jogo, algumas gírias foram selecionadas para deixar você craque no tema futebol. Caneta: quando um jogador passa a bola por debaixo das pernas de outro. Cavar uma falta: simular uma situação para conseguir a marcação do juiz. Carrinho: quando um jogador tenta tirar a bola do adversário escorregando. Cartolas: dirigentes de futebol. Frango: gol fácil sofrido pelo goleiro. Chapéu ou balão: chute que faz a bola passar por cima do adversário. Firula: jogadas inusitadas sem propósito de fazer o gol. Pé murcho: jogador ruim. Mão de alface: goleiro que leva gols. Tapetão:  jogo disputado na justiça desportiva

 

(Fonte: https://bit.ly/2S5r7sO)






 

homem gol do marcílio dias

Gelson fez tabelinha entre o Marcílio e Riomar. Até que recebeu uma intimação: escolher entre o futebol de salão ou de campo. Optou por onde tudo começou. Mesmo com a escolha, os primeiros passos no estádio Doutor Hercílio Luz não foram fáceis. Assim como uma criança, teve de buscar a cada dia seu lugar no time. Em 1987, uma surpresa, foi convocado com mais 12 colegas da mesma categoria, a jogar com o time principal.


O técnico do elenco profissional resolveu expor sua carta na manga. Gelson era o ás guardado para a melhor jogada. O problema? O guri franzino de 20 anos era apenas um amador. Se você entende de poker, sabe que a carta ás sem uma boa sequência é ineficaz. “Foi decepcionante”, afirma Gelson, ao lembrar que a ação poderia ter colocado em risco todo o trabalho de fundamentação feito no time de base. 


Os garotos não tiveram uma boa participação no time principal. Isso os fez voltar de onde tinham saído. Disputaram então um outro campeonato. Este sim, veio com vitória. O futebol é como a canção “Alma e Coração” de Projota e Thiaguinho, “Sem o suor, o valor da conquista permanece em vão”. O meia-atacante fez acontecer. Com fé, lutou e conquistou. Tal qual afirma Augusto Cury, “A vida é um jogo. Podemos perder em muitos momentos, mas não podemos admitir ficar no banco de reserva”. 


Foram muitos chutes, passes, lançamentos e dribles. Até que chegou a hora de travar a chuteira numa partida profissional. Assinou seu primeiro contrato como jogador. Na época, era raro este acontecimento. Devido ao valor do garoto, os dirigentes preferiram oficializar a parceria. Sabiam que tinham nas mãos um precioso diamante bruto itajaiense. Pouco a pouco, foi lapidado. A primeira exibição seria no Gigantão lotado.


O aclamado Campeonato Catarinense da série A (1988) estava em disputa. Gelson foi um dos 11 jogadores que levou a fama do Marinheiro Estado afora. A habilidade daquele time foi composta por grandes nomes como Jairo Lenzi, Rogério Uberaba, Mário Botuverá, Sidnei Spina, Toninho Camarão, Gilmar Madeira e Joel, artilheiro do ano. Naquela época, Gelson conquistou um importante aliado. Lenzi foi seu grande parceiro de clube. Após anos, se reencontraram no Ceará Sporting Club. No mesmo time, penduraram as chuteiras. Entretanto, esse papo de aposentadoria fica para o final desta história. Agora, ainda há muito a contar. 


O time ficou conhecido como Siri Mecânico. É uma homenagem referencial à Seleção Holandesa de 1974. A Laranja Mecânica do futebol usava o nome de um clássico da literatura e dos cinemas de 1972. O uniforme dos holandeses, na mesma cor, vestia os jogadores que fizeram história na modalidade. Não se apegavam a posições fixas em campo. Circulavam pelo gramado com passes rápidos e eficazes até chegar ao gol adversário. 


Contudo, deixaram apenas um gostinho na torcida após perder a Copa do Mundo de 1974. Os itajaienses, por sua vez, fizeram bonito. Trouxeram a Taça Carlos Cid Renaux (1988) para o Gigantão das Avenidas. O prêmio equivale à conquista do primeiro turno do Campeonato Catarinense. Com chave de ouro, Gelson fechou a porta aberta há três anos. Chegara a hora de fazer as malas e viajar até o Sul do Estado.

O técnico do elenco profissional resolveu expor sua carta na manga. Gelson era o ás guardado para a melhor jogada. O problema? O guri franzino de 20 anos era apenas um amador. Se você entende de poker, sabe que a carta ás sem uma boa sequência é ineficaz. “Foi decepcionante”, afirma Gelson, ao lembrar que a ação poderia ter colocado em risco todo o trabalho de fundamentação feito no time de base. 


Os garotos não tiveram uma boa participação no time principal. Isso os fez voltar de onde tinham saído. Disputaram então um outro campeonato. Este sim, veio com vitória. O futebol é como a canção “Alma e Coração” de Projota e Thiaguinho, “Sem o suor, o valor da conquista permanece em vão”. O meia-atacante fez acontecer. Com fé, lutou e conquistou. Tal qual afirma Augusto Cury, “A vida é um jogo. Podemos perder em muitos momentos, mas não podemos admitir ficar no banco de reserva”. 


Foram muitos chutes, passes, lançamentos e dribles. Até que chegou a hora de travar a chuteira numa partida profissional. Assinou seu primeiro contrato como jogador. Na época, era raro este acontecimento. Devido ao valor do garoto, os dirigentes preferiram oficializar a parceria. Sabiam que tinham nas mãos um precioso diamante bruto itajaiense. Pouco a pouco, foi lapidado. A primeira exibição seria no Gigantão lotado.


O aclamado Campeonato Catarinense da série A (1988) estava em disputa. Gelson foi um dos 11 jogadores que levou a fama do Marinheiro Estado afora. A habilidade daquele time foi composta por grandes nomes como Jairo Lenzi, Rogério Uberaba, Mário Botuverá, Sidnei Spina, Toninho Camarão, Gilmar Madeira e Joel, artilheiro do ano. Naquela época, Gelson conquistou um importante aliado. Lenzi foi seu grande parceiro de clube. Após anos, se reencontraram no Ceará Sporting Club. No mesmo time, penduraram as chuteiras. Entretanto, esse papo de aposentadoria fica para o final desta história. Agora, ainda há muito a contar. 


O time ficou conhecido como Siri Mecânico. É uma homenagem referencial à Seleção Holandesa de 1974. A Laranja Mecânica do futebol usava o nome de um clássico da literatura e dos cinemas de 1972. O uniforme dos holandeses, na mesma cor, vestia os jogadores que fizeram história na modalidade. Não se apegavam a posições fixas em campo. Circulavam pelo gramado com passes rápidos e eficazes até chegar ao gol adversário. 


Contudo, deixaram apenas um gostinho na torcida após perder a Copa do Mundo de 1974. Os itajaienses, por sua vez, fizeram bonito. Trouxeram a Taça Carlos Cid Renaux (1988) para o Gigantão das Avenidas. O prêmio equivale à conquista do primeiro turno do Campeonato Catarinense. Com chave de ouro, Gelson fechou a porta aberta há três anos. Chegara a hora de fazer as malas e viajar até o Sul do Estado.

um peixeiro no criciúma

Em 1989, Gelson chegou ao Criciúma Esporte Clube. Passou cinco anos de sua vida longe de casa. Logo, o estádio do Tigre se tornou sua segunda casa. Faturou quatro Campeonatos Catarinenses (1989, 1990, 1991, 1993). Cinco Taças Governador do Estado (1990, 1991, 1992, 1993, 1994). E a Copa Santa Catarina (1993). Porém, um título em especial conquistado há 27 anos, arranca sorrisos do ex-jogador até hoje.


A Copa do Brasil de 1991 foi a batalha mais árdua para o gladiador itajaiense. Dez jogos de extrema complexidade. Enfrentou os melhores times do País. A cada partida, um obstáculo. Do banco de reservas, era conduzido pelo lendário Luiz Felipe Scolari –  que seria, em 2002, o treinador do pentacampeonato mundial da Seleção Brasileira. Os adversários foram minuciosamente analisados por Felipão. A cada eliminatória, os jogadores já entravam nas quatro linhas com o rival estudado.

 
 

 

A última disputa pela taça foi contra o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Batalha em casa. A partida estava em 0x0, o empate bastava, já que o primeiro jogo finalizou em 1x1. Na época, havia o “gol de vantagem fora de casa”, que beneficia o time que marcar no estádio do adversário. No estádio Heriberto Hülse, o catarina foi expulso aos 20 minutos do segundo tempo. Pressão total. Não era a hora do Tigre perder a peça fundamental do ataque. Arquibancadas lotadas. Na cabeça de Gelson, foram 30 minutos eternos. Os ponteiros do relógio pareciam marcar no sentido contrário, até que finalmente chegaram os 45 minutos. Após o apito do juíz, o alívio, logo substituído pela euforia. Vitória inédita na história do Cricíuma. Marco no futebol catarinense.

a conquista das américas pelo grêmio

Após se sagrar campeão lendário do Criciúma, Gelson foi transferido em 1994 para o Esporte Clube Vitória, da Bahia. Ficou apenas um ano até receber um convite de Felipão, fazer parte do Grêmio. Parecia um sonho. Mais uma vez, fez suas malas. Dessa vez, além das roupas, levou consigo a esperança de disputar campeonatos ainda maiores. Em Porto Alegre, viveu o ápice da carreira. Mil novecentos e noventa e cinco seria seu ano dourado. 


No elenco do time gaúcho, chegou com o papel de coadjuvante. Os astros eram Arce e Dinho, que encabeçavam o Esquadrão Imortal, composto também por Danrlei, Jardel e Paulo Nunes. Com seus companheiros, conquistou a Copa Solidariedade, o Campeonato Gaúcho, a Copa Sanwa Bank e a Copa Libertadores da América. Nessa última, em especial, teve apenas o nome inscrito, não jogou, mas ganhou a medalha de campeão. 


O triunfo das Américas foi o passaporte para um voo direto até o Japão. Na época, o Mundial de Clubes era chamado de Copa Toyota e Copa Intercontinental. Foi disputada em jogo único contra o Amsterdamsche Football Club Ajax, da Holanda. O jogo ocorreu em 28 de novembro de 1995. A batalha de titãs foi nada fácil. O tricolor gaúcho apostava na forte defesa, aliada ao ataque oportunista, para conquistar o troféu. 


A estratégia do Ajax era o entrosamento do time, aliado à velocidade e ao toque de bola. O duelo foi equilibrado. Kluivert, principal atacante holandês, sofreu para passar a defesa do zagueiro Rivarola, até que foi expulso na segunda etapa. O jogo seguiu sem gols durante os 90 minutos. Após isso, mais 30 minutos de prorrogação. Os atletas já estavam exaustos. Com o apito do juiz, bastava rezar e enfrentar a temida disputa de pênaltis. 
 

O peixeiro era conhecido pela forma de bater pênalti. Ao invés de correr, andava semelhante ao personagem Carlitos interpretado por Charlie Chaplin. Não usava força. Batia de forma colocada para tirar o goleiro da bola. E assim como o ator, marcou seu nome. Não no cinema ou teatro, mas sim nos estádios. Chaplin tinha seu chapéu-coco, bengala, calças largas, casaco apertado e sapatos enormes. Gelson, por sua vez, vestia o uniforme tricolor mesclado entre o azul, branco e preto. A bermuda era do seu tamanho. E no lugar dos sapatos largos, chuteiras fabricadas na medida certa para o sucesso do meia atacante. 


Gelson lembra que Felipão não aprovava seu estilo de bater pênalti. Mesmo assim, o meia já era velho conhecido do técnico e havia conquistado a confiança do professor. Na hora de escalar os jogadores com a responsabilidade de defender o título do Mundial, selecionou o craque peixeiro. “Se fosse hoje, eu não bateria devido à responsabilidade” - Gelson afirma isso, 23 anos após o acontecido. Ele relembra que com tranquilidade, aceitou a missão de marcar gol. 

À sua frente, ninguém menos que Edwin van der Sar. Um dos maiores goleiros da história do futebol mundial. Por anos, guardou as redes dos Diabos Vermelhos –  Manchester United (Inglaterra), Ajax (Holanda), Juventus (Itália) e Fulham (Inglaterra). Imaginem a cena: Estádio de Tóquio, público de 60 mil pessoas. O Grêmio em busca da segunda estrela amarela na camiseta. Um meia-atacante tranquilo apanha a gorduchinha nas mãos. Ajusta-a na linha demarcada. Pega distância. Dá um, dois, três, quatro passes. No quinto, com o lado de dentro do pé direito, faz o chute. A bola voa sem força, mas com efeito até o canto esquerdo da trave. Desvia do goleiro. Passa a linha branca. É gol! De Gelson, do Grêmio. O catarina impõe os punhos para cima. As mãos fechadas se dirigem ao céu. De joelhos, caí ao chão. Vibra uma, duas vezes. Dos lábios, sai a palavra “obrigado”. Naquele momento, devia tudo a Deus, que o guiou desde o bairro São Judas até o outro lado do mundo. 


Placar final: Grêmio 3 x 4 Ajax. Não deu para os gaúchos, mas rendeu história para o catarinense. Assim, Gelson fechou mais um ciclo. Tomou para si os versos da canção "Maré Rasa", de John Mueller, "Pra partir, fé. Pra seguir, chão. Quem não vai, não encontra a direção". Desse modo, é encerrado este capítulo lendário que como o poema “Caminho da Glória”, de Cruz e Souza, foi "Caminho cor-de-rosa e de ouro. Estranhos roseirais nele florescem. Folhas augustas, nobres reverdecem".
 

caminho de volta

O peixeiro se considera um cara abençoado. Quando chegou ao Marcílio, lá em 1985, acreditava ser um jogador menos habilidoso. Segundo ele, Deus o levou a lugares inimagináveis. A fé o acompanhou em toda a carreira. Uma dessas situações foi uma fratura na clavícula. Na partida em questão, defendeu o Criciúma contra o rubro-anil itajaiense. O resultado: três meses parado. Não foi fácil. O processo é longo e aguardar não é fácil, mas um mal necessário. E como diz o ditado, “De um mal, Deus tira um bem maior”.

Gelson costuma dizer que o público que acompanha o futebol, não imagina a responsabilidade dos jogadores. A pressão é contínua. Logo que se cruza a linha de partida, o atleta carrega nas costas um perigoso compromisso. Desde a torcida até a comissão técnica e imprensa. É preciso estar sempre bem, no ápice da modalidade. Realizar contratos financeiramente vantajosos. Conquistar seu espaço com o treinador. Mostrar o próprio valor.

“Eu sempre prezei por trabalho. Uma dedicação ao extremo. E ouvir muito pouco o externo” – Gelson afirma que as críticas que surgem ao longo da carreira precisam ser ignoradas. O grande cronista esportivo Nelson Rodrigues sempre afirmou: “As vaias são os aplausos dos desanimados”. Ouvir demais pode influenciar o rendimento em campo. Impedir fazer aquilo que mais ama, jogar bola. 


“Um atleta nunca entra para jogar mal” – Segundo o ex-Marcílio, uma partida fraca decorre de diferentes fatores. O emocional conta muito. Problemas com relacionamentos, família. A concentração é peça fundamental para uma boa exibição. Como Leandro Karnal diz, " O que eu penso não muda nada além do meu pensamento; o que eu faço a partir disso, muda tudo”.



 

chuteiras penduradas

Despedidas não são fáceis. Dar adeus aos gramados, também não. Com o passar dos anos, Gelson percebeu que o temido fim estava próximo. Aos poucos, Gelson foi se desvinculando dos clubes. De 1996 até 2000 as trocas foram constantes. Passou por muitos times. Se instalava na cidade e 30, 90 dias já era hora de fazer as malas de novo. Era acostumado a uma rotina frenética. Média de 60, 70 jogos anuais. Após isso, apenas 30 jogos em três anos. As nuvens acinzentadas se aproximaram do jogador com fome de bola. Os dias ensolarados vividos no Marcílio, no Criciúma e no Grêmio haviam ficado no passado. 


“Foi traumático, mas eu precisava passar” – Gelson acredita que os momentos difíceis o fortaleceram para o futuro. Acredita que tudo faz parte de um plano divino. Esquentar banco. Ver a partida fora das quatro linhas. Ser demitido. Tudo isso deu bagagem para se tornar um ótimo técnico, sensível às dificuldades dos jogadores que treinaria. O peixeiro afirma que “O futebol profissional é todo dia”. É preciso lutar e fazer boas temporadas. Na vitória ou na derrota, se dar ao máximo. Assim é lapidada a carreira de um atleta de futebol.


O meio-campista tirou seu time de campo em 2001. A partida foi tranquila. Ainda jovem, aos 36 anos. O mais difícil é o despreparo. O futebol se torna o mundo do atleta. O rompimento desse ciclo pode ser traumático. Gelson, porém, já havia preparado o seu psicológico. Homem de fé, sempre que pode cita o nome de Deus na alegria e na tristeza. Viu como alívio a “aposentadoria” – sentido figurado, uma vez que jogador de futebol não se aposenta, apenas desiste do esporte. Ninguém joga profissionalmente por 35 anos.


O músico blumenauense Luiz Vicentini, em "Um Dia a Gente Se Vê", afirma que "Tudo acontece de um jeito que a vida possa renascer". Da mesma maneira, Gelson viu sua vida florescer. Com o tempo, tudo fez sentido. Alegrias, tristezas, dificuldades e vitórias. Como no discurso de Steve Jobs (2005): “Os pontos só se conectam em retrospecto. Por isso, é preciso confiar em que estarão conectados, no futuro. É preciso confiar em algo – seu instinto, o destino, o karma”. 
Gelson se tornou conhecido no Estado e no País. Com humildade, concretizou seus projetos. O futebol o levou a lugares inesperados. Na terra do Sol nascente, deixou sua marca. Por onde passou, conquistou muitos corações, amizades e boas experiências. Pintou quadros nesta arte popular que é o futebol. Já defendeu Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Ceará e o Brasil. Com a geral no bolso, garantiu o seu lugar. 


Com 38 anos, assumiu um novo papel no espetáculo do futebol. Do banco, passaria suas experiências a outros jovens jogadores. Treinou Brusque, Marcílio Dias, Criciúma, Barueri, Gama, Mogi Mirim e Joinville. Hoje, Gelson caminha pelos gramados do estádio quase centenário – Gigantão das Avenidas – com a função de coordenador técnico. Como no ditado, "O bom filho à casa torna".

Na canção “Mostra Tua Força”, de Anitta, Thiaguinho e Fabio Brazza, está a prova: “Somos do tamanho do sonho que queremos ver. Um drible que ninguém pode prever. Uma emoção que nos resume, uma paixão que nos une. Um Brasil que podemos ser”. Fez o povo catarinense acreditar no futebol que tinha em casa. Mais do que vencer, virou o jogo. Antes de pôr a mão na taça, pôs a mão na massa. Com o coração nas chuteiras, levou milhares de torcedores ao delírio. Lutou com garra para, a cada dia, se tornar um homem melhor. Fez valer seu suor!